17/08/2010

Clara de Assis

“Querendo o Altíssimo Deus, Bondade suprema, renovar no seu Filho os nossos dias, mandou Francisco; ao invés de sua Mãe, mandou-nos Clara, Virgem bem-aventurada. Tu renovaste, ó Clara, a Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo onipotente!” Assim, uma bela canção quinhentista aproxima e enquadra os dois santos de Assis, São Francisco e Santa Clara: um homem e uma mulher animados do mesmo amor por Cristo, chamados pelo Pai dos Céus a restaurar a sua Igreja vivendo o Evangelho. Francisco tinha 11 anos quando Clara nasceu, em 1193, num austero palácio na Praça de São Rufino, na parte alta de Assis. À diferença do santo, filho da nova burguesia municipal, Clara pertence à classe dos “maiores”, sendo filha de Favarone dos Offreducci, uma nobre família de cavaleiros. Da boa mãe Hortolona, recebe uma fé profunda que, junto a uma terna sensibilidade para com os pobres, fará dela uma verdadeira cristã. Com 18 anos, recusa os esponsais: abre-se nela um caminho de amor mais forte e exigente por Cristo, prelúdio de uma nova conversão. Tinha já, há alguns anos, ouvido falar de Francisco e da louca vida de mendicante por Cristo, que vive com poucos companheiros. Clara se sente atraída por aquela escolha de vida, tão luminosamente evangélica. Alguns encontros com Francisco são suficientes para produzir um facho de luz também em sua vida. Diante da palavra ardente de Francisco, toda a incerteza se dissipa, e se faz caminho para a decisão: também ela se despojará de tudo para possuir Cristo e seu Evangelho. No domingo de Ramos de 1211, Clara abandona a sua casa e junta-se aos Frades Menores na Porciúncula. Leva consigo a secreta bênção do bispo Guido que durante a liturgia dos Ramos, desceu do altar para levar o ramo de oliveira bento à jovem, absorta no pensamento daquilo que estava para acontecer. Diante do altar de Santa Maria, Francisco a reveste com a rústica túnica em forma de cruz; Clara, inteiramente consagrada a Deus, possuirá então somente o seu único e desejado bem. Em previsão da tempestade que seria desencadeada na família à notícia da fuga, Francisco conduz a jovem aos cuidados de um Mosteiro de Beneditinas. Efetivamente, quando os parentes vem a saber onde está refugiada, fazem de tudo para tentar reavê-la. Clara não cede: agarrada ao altar, mostra que a sua decisão é irreversível. Todavia, a sua permanência no Mosteiro de São Paulo das Abadessas não pode se prolongar e o novo refúgio será o Mosteiro de Santo Ângelo de Panzo. Nesse lugar, uniu-se a ela sua irmã menor, Catarina, depois chamada de Inês, como a mártir romana, pela coragem com que defenderá a sua vocação. Finalmente, Francisco pode conduzir as duas irmãs para a mesma morada definitiva, o pequeno “lugar” de São Damião, onde outras jovens se unirão a elas, formando o primeiro núcleo das Irmãs Pobres, chamadas também Clarissas. Nesse lugar o Crucifixo tinha dito a Francisco: “Vai, repara a minha casa que como vê, está em ruína”; nesse lugar, Clara participa do mesmo chamado evangélico, repara a Casa do Senhor, que é a Igreja, com uma vida de oração e de penitência; aqui Clara mostra-se como Maria, que guarda a Palavra da inspiração do chamado que vem da Cruz. Francisco, livre como um pássaro pelos caminhos do mundo, escolhe para Clara uma vida escondida na clausura de São Damião: um ininterrupto colóquio de amor com o Filho de Deus, levando com Ele ao Pai a súplica e o louvor de toda a Humanidade. Clara e suas irmãs constituíram sempre uma das maiores alegrias de Francisco; comove-lhe a alegria com que enfrentaram a pobreza, a penúria, a fadiga, a tribulação e o desprezo do mundo.Ele vê renovar-se em sua fraternidade a experiência da Igreja Primitiva, na qual todos eram um só coração e uma só alma. Como seus Frades, elas vivem sem posse, trabalhando com as próprias mãos e confiando na Providência. Quando ele não pode visitá-las pessoalmente, envia por escrito seus ensinamentos.
Santa Clara será sempre a fidelíssima guardiã da mensagem de Francisco e, depois da morte do santo, os primeiros companheiros atingirão, por meio dela, a vitalidade da inspiração evangélica. Para Clara, como para Francisco, o viver “sem nada de próprio” é uma necessária comunhão de vida com a humanidade pobre do Filho de Deus. Por isso apresenta todo o fascínio do amor por Cristo, e nisso está a medida da felicidade. Na solitude de São Damião sua Presença viva perpassa de límpida alegria os dias da Santa e aquele lugar, preenchendo os olhos e o coração de modo que “sempre e por toda a parte ela vê o seu Jesus”. Ela o serve durante o dia nas irmãs, às quais lava as mãos e os pés, prestando todo cuidado às enfermas; reencontra-o durante a noite, prostrada diante do tabernáculo, que quis ter num oratório, no coração do mosteiro. Contempla-o como “Menino envolto em pobres paninhos”, e em memória dele, deseja sempre usar roupas vis; segue-o na fadiga e nas penas, que sustenta pela redenção do mundo. Geme aos pés da cruz, onde o vê morrer, e grita: “Não me abandonará jamais a tua lembrança, se consumirá em mim a minha alma”. As irmãs a vêem retornar da oração com o rosto radiante de luz, enquanto de sua boca saem as palavras de Deus. Também nas suas necessidades materiais pode contar com a Presença operante do seu Senhor. De meio pão partilhado com os Frades... se multiplica e se faz cinquenta grandes fatias para as Irmãs, como Santa Clara havia mandado. Em sua vida de contemplação, Clara sabe que é “colaboradora de Deus e ao mesmo tempo sustento dos membros vacilantes do inefável Corpo de Cristo que é a Igreja”. Separada de todos, permanece todavia intimamente ligada aos seus irmãos e à sua história, condividindo as angústias e levando a sua contribuição de bem. Dois episódios são particularmente significativos. Narram-nos as companheiras da Santa, testemunhas dos fatos. Pela oração e penitência de Clara e de suas irmãs, Vital de Aversa, a mandato do Imperador, cessa o assédio da cidade de Assis. Os sarracenos que haviam entrado no claustro do convento partiram sem fazer qualquer dano quando Clara levou para fora o Santíssimo Sacramento. Ao término de 42 anos transcorridos em São Damião, dos quais 29 doente, entre as provas da pobreza, na dureza da penitência, na luta tenaz pela defesa de sua nova Forma de Vida, que será confirmada oficialmente só na vigília de sua morte, Clara não se deixa tocar nem de leve pela noite da desilusão, antes, sente-se uma mulher feliz e realizada. Estamos no mês de agosto de 1253, no despido dormitório de São Damião ressoa a sua voz: “Vai, segura, em paz, alma minha, porque tens boa escolta. Aquele que te criou, antes te santificou, e depois que te criou, colocou em ti o Espírito Santo e sempre te guardou, como a mãe ao seu filho ao qual ama. Tu, Senhor, sê bendito por me teres criado!” Como Francisco, morrendo, deseja que ao redor dele os Frades cantem o seu Cântico das Criaturas, Clara eleva o seu canto ao Deus da vida. Assim, em 11 de agosto de 1253, festa de São Rufino, patrono de Assis, “passou deste mundo a senhora Clara, verdadeiramente clara, sem obscuridade do pecado, para a claridade da eterna luz”(Proc3). Após a morte, o corpo de Clara foi transladado lá onde, alguns anos antes, havia estado o corpo de São Francisco, na Igreja de São Jorge. Gradualmente as Irmãs Pobres se transferiram de São Damião, para junto ao antigo hospital de São Jorge, levando consigo o Crucifixo que chamou Francisco para restaurar a Igreja. Aqui, pouco a pouco, surge junto da Basílica dedicada à Santa, um novo Mosteiro onde por mais de sete séculos, uma comunidade de Irmãs Pobres eleva ao Pai dos Céus o canto de louvor e de súplica dos seus pobres.

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