25 de ago de 2009

Santa Clara de Assis e sua Época



O mundo da Idade Média, que abrangeu mais ou menos mil anos (476-1453), era inteiramente diferente do mundo de hoje. Francisco e Clara viveram no fim desse período, quando ocorriam várias transformações em todos os setores. O mundo era praticamente a Europa, pois não se tinha muitas notícias do Oriente e quase nenhuma do Extremo Oriente. O Império era considerado o grande poder, porém como o poder temporal estava submisso ao poder espiritual, os imperadores, reis e duques eram considerados vassalos do Papa.
Era o tempo dos cavaleiros e do comportamento tipicamente cortês. Também era o tempo das Cruzadas, que se dirigiam aos lugares santos da Palestina tentando arrancá-los das mãos dos muçulmanos. Como resultado desse contato com os orientais desencadearam-se muitas mudanças. Nesta época estava caindo o feudalismo, situação histórica em que um senhor de terras possuía as pessoas como se fossem coisas. Os homens eram escravos. Depois de séculos de isolamento nos campos, sob o sistema feudal, a população européia voltou a se reagrupar em pequenos povoados, que foram crescendo. Nasciam assim as cidades, mas tudo era mais difícil do que hoje, pois de uma cidade para a outra mudava língua, dinheiro, domínio político, soldados. A única língua que valia para todos era o latim, mas nem todos a dominavam. Não havia escolas. Os nobres, como Clara, aprendiam a ler em casa, com professores particulares. O mais comum, entretanto, era aprender a ler na igreja, utilizando-se dos próprios livros litúrgicos. São Francisco aprendeu a ler na igreja de São Jorge.
Nos grandes centros, como Paris, Bolonha, Roma surgem as Universidades, centros de cultura humanística e religiosa. Tem desenvolvimento o estudo da Filosofia, da Arte, da Música, da Política. Grandes letrados se destacam no mundo religioso. Os homens do povo começavam a ter pequenas propriedades, tornavam-se comerciantes, andavam pelo mundo para comprar e vender. A sociedade organizava-se diferentemente: nascia o burburinho do comércio. Ver o pai de São Francisco como mercador de tecidos, que ia buscar na França fardos de pano para comerciar, era já coisa adiantadíssima, pois tudo estava apenas começando. As pessoas se reuniam nas praças e aí falavam de todos os acontecimentos. Os comerciantes comentavam suas viagens, seus negócios, as novidades. A Europa ia sendo rasgada por caminhos e estradas. O meio de transporte era o cavalo, mas o mais comum era andar pé. Era também o tempo das disputas e guerras entre as cidades. Cada cidade que surgia queria ter vantagens. Surgiam os novos ricos. O dinheiro foi se tornando um novo rei. Os pobres e os doentes, aqueles que não podiam subir na escala social, eram marginalizados. Particularmente triste era a sorte dos leprosos. Os poderosos agora não eram mais os senhores feudais, mas os comerciantes que faziam negócios apreciáveis.
Na Idade Média, o mundo era católico. Quem não era católico era considerado herege e o destino dos hereges era a fogueira. Os cristãos dessa época concebiam o mundo como um Reino de Deus na terra, uma antecipação do céu. O divino não se separava do humano. Tudo era uma coisa só. A sociedade medieval era impregnada do sentido religioso. O Papa era uma autoridade fortíssima que, como representante de Cristo, interpretava a vontade de Deus. Por isso o vemos envolvido não só com assuntos religiosos e espirituais, mas também políticos, sociais e econômicos, convocando guerras, instituindo a Inquisição, lutando com os Imperadores. De todos os Pontífices deste período, Inocêncio III (1198-1216) foi o mais importante e hábil, e foi o último Papa que conseguiu dobrar os imperadores. Por causa das muitas revoluções e guerras, o Papa precisava sempre estar mudando de uma cidade para outra.

Também a família de Santa Clara, composta quase toda de nobres cavaleiros e militares, por volta de 1200 teve que fugir para o Castelo de Corano, pois sua casa foi destruída na guerra de Assis contra Perusa. Foi nesta ocasião que ela conheceu Benvinda de Perusa, segunda Testemunha no seu Processo de Canonização, e também Amata e Balvina, suas primas em segundo grau, que depois foram a quarta e a sétima Testemunhas do Processo de Canonização, ambas filhas de Messer Martinho de Corano.
Apesar da consciência religiosa, a vida cristã do povo, dos religiosos, sacerdotes, cardeais e papas deixava muito a desejar. O Evangelho parecia esquecido. Havia muitos sacerdotes e os mosteiros estavam lotados de monges e monjas. Porém, havia também muito relaxamento. Muitos ingressavam na vida clerical ou monástica sem ter vocação, levados pelos interesses políticos e econômicos das famílias.


Muitos bispos e sacerdotes estavam preocupados e envolvidos com assuntos políticos. O povo precisava ter maior formação cristã. Sentia-se vontade de um retorno ao Evangelho. Nesta época, surgiam movimentos de renovação espiritual, alguns deles heréticos, em oposição à Igreja. Outros transformaram-se em Ordens Religiosas, como as que foram fundadas por Cavaleiros, para libertar a Terra Santa, ou como as Ordens Mendicantes (Carmelitas, Servitas, Dominicanos, Franciscanos...) foram como luz, que deram novo impulso à vivência radical do Evangelho.
A época das Cruzadas abrange cerca de três séculos (mais ou menos entre 1000-1300). No Concílio de Clermont, em 1095, o Papa Urbano II convocou a cristandade ocidental para a reconquista da Terra Santa e, especialmente, do Santo Sepulcro, em poder do Islã. Em 1291, a último fortaleza cristã, a cidade portuária de São João d'Acre, caiu de novo nas mãos dos maometanos. Embora se distingam normalmente sete ou oito Cruzadas oficiais, trata-se na verdade de uma contínua luta, porque entre as grandes expedições comandadas por reis ou vassalos papais, houve sempre pequenos grupos de cruzados a caminho da Palestina. Trataremos das Cruzadas como um todo, demonstrando sobretudo que, de fato, devem ser vistas como expressão de fé‚ e não apenas como ambição de poderio dos papas, ou aspiração guerreira e desejo de enriquecimento por parte dos reis e da nobreza, ou mesmo como manifestação de um incipiente imperialismo ocidental, afirmações que se ouvem com freqüência. Qual a meta das Cruzadas? Durante três séculos, o Ocidente não poupou dinheiro nem sangue para apoderar-se do território onde Cristo viveu, sofreu, morreu e foi sepultado, ressuscitando dos mortos. Somente uma cristandade que experimentasse concretamente, no seu cotidiano, a presença palpável do Senhor, valorizando sua terra natal como o mais santo dos santuários, lugar de onde emanava visivelmente a graça celeste, podia entregar-se, ao longo de tanto tempo, à reconquista desta região, que considerava como sua legitima propriedade. Alguns historiadores enfatizam muito os ganhos materiais decorrentes das expedições ao Oriente. Indubitavelmente, sua riqueza atraía número considerável de cruzados, mas a primeira expedição já revelara claramente que o resultado material não compensava os enormes e incalculáveis riscos. Era maior o número de cavaleiros que voltavam espoliados, do que carregados de riquezas. A exortação de Urbano II: “Cada um se desfaça de seus próprios interesses e aceite a Cruz”, continha uma dura verdade, comprovada pelos fatos. Não obstante, dezenas de milhares se inscreveram nesta causa de Deus. A composição das expedições, maiores ou menores, revela algo do espírito que as animava. Não se tratava apenas de militares profissionais, de cavaleiros, mas nelas ingressavam pessoas de todas as camadas da população. Somente a fé compartilhada seria capaz de unir cavaleiros e camponeses, franceses, alemães e ingleses numa campanha solidária. Os exércitos de cruzados representavam eloqüentemente o sentimento comunitário do homem medieval, baseado na unidade de fé. A fraternidade e solidariedade, vividas durante essas caminhadas cheias de perigos, não se podem medir estatisticamente, contrabalançando, certamente, as inúmeras falhas e crimes que acompanhavam as Cruzadas, como, aliás, qualquer outro movimento de massa. Quem já  leu os relatórios de testemunhas oculares, descrevendo a emoção de quando, finalmente, os expedicionários se ajoelharam na Igreja do Santo Sepulcro, pode entender como a fé era, de fato, o motivo primário e decisivo da Cruzada.
Quem melhor testemunhou a veracidade dessa afirmação foram as Ordens Militares, de inspiração religiosa. Após a primeira Cruzada, fez-se sentir a premente necessidade de conservar a região conquistada, uma faixa de terra que se estendia de Antioquia, no norte, a Jerusalém, no sul. Tal tarefa foi confiada a Ordens de Cavaleiros, entre as quais são mais conhecidas a Ordem Teutônica, a dos Hospitaleiros e a dos Templários. Seus membros obrigavam-se aos três votos: pobreza, castidade e obediência. Seus castelos, uma combinação de fortaleza e mosteiro, eram sentinelas ao longo da fronteira. O ideal cristão encontrou neles sua mais alta expressão, que conservou até hoje nas legendas relacionadas ao Santo Graal, embora tenham raízes bem mais antigas, na Inglaterra. É verdade que também as Ordens Militares sofreram decadência, como no caso dos Templários, que se transformaram numa importante empresa bancária. O ideal original, entretanto, expresso na Regra dos Templários, inspirado pelo próprio Bernardo de Claraval, continuou a atrair não apenas os cruzados, mas toda a instituição da cavalaria Europa. Os cavaleiros que deixavam poder e vantagens, inerentes a seu “status” social, para servir a Deus e ajudar os mais fracos, romeiros para Jerusalém ou desprotegidos no próprio país, chamam mais a atenção do que outros que desviaram os objetivos da cruzada em benefício próprio.
 Não por acaso, o último grande cruzado foi canonizado: o santo rei da França, Luís IX, chefe das duas últimas Cruzadas, de 1250 e 1270, terciário franciscano. Ele viu nas Cruzadas a plena realização do ideal de um cavaleiro cristão, ao qual consagrou toda sua vida. Tudo isso mostra como as Cruzadas contribuíram para o desenvolvimento da civilização cristã. Embora não fosse atingido totalmente o objetivo original, a conquista da Terra Santa, uma vez que Jerusalém, ocupada em 1099, acabou nas mãos dos muçulmanos em 1187, as Cruzadas preservaram a Europa contra os ataques do Islã por mais de três séculos, enquanto na Península Ibérica, a Reconquista Cristã estava em pleno andamento. Expressão de uma cristandade consciente de seu poder, a Cruzada incentivou extraordinariamente essa autoconsciência.
Até então, a vida econômica se desenrolava dentro de umas formas provadas por larga experiência, e quase exclusivamente dentro dos limites de uma economia natural e de trocas. O dinheiro era escasso e pouco empregado. Os burgos, os mosteiros e as grandes fazendas dos nobres eram autárquicos, ou seja, produziam e proporcionavam quase todo o necessário para viver. Neste contexto, o dinheiro era improdutivo, um mero objeto valioso. O comércio era todo na base de troca de produtos.
Com as Cruzadas, as coisas mudaram, pois o contato cada vez maior com o Oriente desencadeou o princípio de uma revolução econômica. Começava o comércio à base do dinheiro. A essa revolução econômica seguiu-se uma transformação social, que originou mais tarde uma mudança religiosa. O dinheiro que, antes era uma simples medida de valor para o comércio de troca, tornou-se verdadeiro instrumento de pagamento. À força do suor e do trabalho corporal do homem‚ foi acrescentada a força do capital, cada vez maior. O dinheiro fica sendo produtivo; quer dizer, trabalha para o homem e no lugar do homem. O comércio se faz impessoal e a economia também. Abre-se espaço para um tipo de ganância totalmente nova: quem tinha dinheiro, tinha poder. Uma terrível sede de dinheiro se apoderou das pessoas. O dinheiro era um valor permanente e do qual se podia dispor em qualquer momento. Na posse do dinheiro viu-se de repente a base e garantia da felicidade na terra. Dito brevemente: nascia o sistema econômico do capitalismo, em foram gradual, mas em escala cada vez maior. O dinheiro trouxe a indústria. Os mercadores procuravam as matérias primas e as elaboravam. Junto ao artesanato autônomo nasceu a empresa industrial e, sobretudo, a têxtil e a metalúrgica. Com razão se assinalou aqui a data da aparição do proletariado no Ocidente, aquela classe de homens que, por dinheiro, trabalham para um empresário. Nascem duas novas classes: os operários e os funcionários. Se até então se havia trabalhado para conservar a vida, agora se trabalha para ganhar mais. O comerciante que, com risco de sua vida, viaja por diversos países, só deseja uma coisa: aumentar seus ganhos e elevar assim sua existência. O trabalho adquire uma categoria muito maior na vida do homem. E na existência dos cidadãos alcança uma posição a que se subordina tudo mais, inclusive a vida religiosa. A Igreja, rejeitando a usura e demonstrando aversão pelo comércio, que classificava como algo pecaminoso, demonstrou certa incapacidade de integrar esse fenômeno da atividade humana na sua concepção do mundo. Manifestou certa desconfiança, reforçada pelo fato de ser a população urbana mais aberta a novas correntes espirituais. Foi preciso lutar contra o perigo inerente das novas doutrinas.
Por volta de 1200, a cristandade foi abalada por vários movimentos heréticos. A Inquisição surgiu como resposta a esta fermentação, como a instituição encarregada de procurar hereges e de castigá-los. Mas o seu principal objetivo era tirar assuntos religiosos da alçada do Imperador e dos Príncipes.  Seus tribunais dependiam, desde o princípio, dos bispos. Na luta contra a  heresia dos cátaros e albigenses, o Papa Inocêncio III enviou alguns cistercienses para o sul da França, a fim de ajudar os bispos na caça e punição dos hereges. Talvez devido à demasiada tolerância desses tribunais o Papa Gregório IX fundou a Inquisição Papal, cujos juizes na sua maioria eram dominicanos. A Inquisição atuava em estreita colaboração com o poder temporal: as heresias, naqueles tempos, eram consideradas uma ameaça à sociedade, um perigo tanto para a Igreja como para o Estado. O poder temporal executava os hereges condenados pela Inquisição. As penas variavam de multas à prisão, aplicando-se mesmo a pena de morte, caso o réu perseverasse na heresia. Este último procedimento, realmente lamentável, juntamente com o emprego de torturas, deu à Inquisição sua má  fama. É verdade que a época em questão se acostumara à crueldade como fenômeno bastante generalizado, de variados matizes. Não podemos, porém negar que muitos inquisidores agiam de boa fé e que o total de vítimas, em toda a Europa, não foi exageradamente grande.
Mas o simples fato de a Igreja, cuja vocação consiste sobretudo na defesa da liberdade e dignidade humanas, frutos de um verdadeiro amor evangélico, admitir tais práticas contra os hereges, constitui  peso indelével no seu itinerário através dos séculos. A própria História prova que a defesa da fé com meios de opressão sempre prejudica a evangelização. Uma resposta mais positiva ao florescimento de movimentos heréticos, foi dada pelas Ordens Mendicantes, das quais os franciscanos e dominicanos tornaram-se representantes mais destacados.  Nos primeiros séculos do cristianismo, se alguém queria dar uma resposta profunda ao amor de Deus, bastava corresponder ao anúncio do Evangelho e fazer-se cristão. Com as inúmeras perseguições, a grande resposta ficou sendo o Martírio. Depois de três séculos, quando já  não havia perseguição de cristãos e nem a possibilidade de ser martirizado, para dar uma resposta ao amor de Deus, o jeito era ir para os desertos, para levar uma vida toda consagrada ao Senhor. Surgem, então, os eremitas. A vida de Santo Antão exerceu grande influência sobre homens e mulheres que povoaram  os desertos, fazendo-se monges e monjas. O monacato primitivo‚ uma grande aventura, uma vida totalmente nova, sem modelos prévios, que requer imaginação e abertura ao Espírito. É um movimento carismático e profético que ninguém poderia ter imaginado nem programado. É a ação do Espírito que faz surgir essa caminhada para o deserto. Com o passar do tempo, a experiência foi mostrando que neste tipo singular de vida, estava faltando o essencial do cristianismo: a vida fraterna. Foi então que nasceram as "lauras": os eremitas moravam em suas cabanas, mais ou menos perto, formando uma coroa (laura= coroa). Ao toque do sino, cada um no seu eremitério rezava os salmos e umas poucas vezes se reuniam. Aos poucos, as cabanas foram se aproximando e formaram o que hoje conhecemos como mosteiro, uma laura apertada, a união de pessoas que vivem sozinhas. Cada um mora na sua cela e aí reza, trabalha, descansa, estuda. Monge‚ tradução de "monachós", de "monazein", quer dizer viver só para si, ou que vive só para Deus. Neste processo evolutivo, onde a vida anacorética foi-se transformando em cenobítica, São Pacômio desempenha um papel destacado. Ao escrever sua Regra, divide os monges segundo os diferentes ofícios manuais e organiza o mosteiro em diversas funções e em alguns ambientes comuns (refeitório, igreja, hospital). O superior não apenas dirige todos os trabalhos, mas é também o pai espiritual dos monges, e a ele se deve obediência e abertura total de consciência. Prevêem-se também castigos e penitências para os transgressores da Regra. A organização toda tem um certo ar militar, certamente condicionada pela rudeza das pessoas e pelos costumes daquele tempo. A vida monástica foi-se difundindo por todo o mundo. No Oriente, os grandes representantes foram Pacômio e Basílio; e no Ocidente Bento e Agostinho. São as quatro grandes Regras Monásticas que estavam em vigor no tempo de São Francisco e de Santa Clara. E quando no IV Concílio de Latrão, em 1215, o cânon 13 foi dito que os novos movimentos religiosos deveriam adotar uma das Regras já aprovadas, Clara teve que optar por uma dessas quatro grandes Regras Monásticas. Todas se distanciavam muito do seu ideal evangélico de “vida em santa união e de altíssima pobreza”, pois ela nunca desejou fundar uma ordem monástica e muito menos ser uma monja.
À medida que os mosteiros foram se desenvolvendo, foram surgindo as Abadias: terreno grande e bem organizado, onde havia tudo o que era necessário para sobreviver. Cada monge recebia do Mosteiro tudo que necessitava, tanto no espiritual como no temporal, e empenhava tudo, mesmo sua atividade externa, no mosteiro e para o mosteiro. Os monges provinham da nobreza; os candidatos plebeus deviam contentar-se com servir a comunidade na qualidade de “conversos”. A abadia era a imagem da Cidade Celeste, separada por muros e governada por um Pai = Abba . O mosteiro se transforma em potência econômica, em parte devido ao trabalho dos monges e em parte devido às doações de terras e bens que recebem de ricos piedosos. Num tempo em que a única riqueza é a terra, o mosteiro amplia seus domínios e vai acrescentando terras às suas terras. Nos anos turbulentos das invasões e guerras, o mosteiro representa um asilo de paz e um refúgio seguro. Muitas vezes os mosteiros estão localizados nas novas fronteiras. Os monges resgatam os valores da tradição antiga e se transformam nos forjadores da nova cultura medieval. O mosteiro é escola de cultura: desde a agricultura até as artes e ciências. Suas granjas-modelo, escolas-modelo, hospitais-modelo, centros de expansão missionária, são focos de influência religiosa social e política. Os mosteiros tornam-se objeto de apetite político e eclesial e tanto bispos como príncipes procuram sua colaboração e seu apoio. A oração, centro da vida monástica, com o tempo, se transforma em culto suntuoso e o trabalho manual ‚ abandonado nas mãos dos servos. As distâncias entre a vida monástica e a sociedade vão encurtando até desaparecerem. O mosteiro é símbolo de segurança e riqueza. Houve várias reformas, para retornar ao primitivo espírito do monaquismo. A figura de Bernardo de Claraval domina todo o século XII com a reforma cisterciense. Mas, apesar da preocupação de Bernardo em manter seus mosteiros longe da riqueza, de sua insistência no trabalho manual e na austeridade de vida, cujo símbolo é o hábito branco, os mosteiros cistercienses se enriquecem, as doações aumentam, o trabalho manual é deixado aos leigos e suas propriedades aumentam cada vez mais. No início do século XIII o monaquismo não consegue se subtrair ao mundo feudal, que chega a interferir até na nomeação dos abades. Todas as transformações que foram acontecendo no final da Idade Média, tiveram grande influência também na vida dos mosteiros. O mundo feudal estava desmoronando, mas a Igreja continuava feudal em suas possessões, domínios e no sistema de benefícios. Os mosteiros estavam lotados, mas havia muita gente que não tinha vocação. Acontecia que as famílias que tinham muitos filhos, não queriam repartir a herança para cada um, a fim de não diminuir o “status” da família. Então davam tudo para o mais velho e os outros tinham que procurar algum meio para sobreviver. Assim, muitos iam para os mosteiros. Por isso havia muito relaxamento e urgia uma transformação radical. Não resta dúvida de que o acúmulo de poder e de riquezas ameaçou constantemente a vida interna da Igreja. O perigo de mundanização se fazia sempre presente. Mas a Igreja medieval teve a coragem de deixar-se questionar, de se converter sempre de novo, de rever posições e de retomar o caminho evangélico. Nisso consistiu a atuação de uma longa série de reformadores que, usando a linguagem de sua comunidade, buscavam formas adequadas de renovação espiritual. As tentativas de reforma conduzem a várias novas Ordens religiosas. Sua variedade prova que a cristandade não se cansava de procurar outras modalidades de vivência da mensagem evangélica.
Até então, a vida religiosa se restringia às Ordens Monásticas. Mas com as transformações sociais foram surgindo por toda parte grupos, associações, fraternidades, que desejavam voltar ao Evangelho, à Igreja primitiva, à vida dos apóstolos. Surgem grupos espontaneamente, sobretudo leigos, com saudades da Jerusalém primitiva e da itinerância apostólica em pobreza e simplicidade. Aparecem pregadores ambulantes, missionários espontâneos. A Igreja começa a se preocupar com esse pulular profético e carismático. Alguns desses movimentos terminarão em seitas e heresias. Outros serão assumidos e aprovados pela Igreja. Às vezes a diferença não está  tanto no conteúdo doutrinal, pois em todos havia boa vontade de reviver o Evangelho; mas na postura que tomam em relação à hierarquia. Como já  temos visto, o desenvolvimento do comércio, base do crescimento urbano, é inimaginável sem os contatos da cristandade ocidental com o Oriente e, especialmente com o mundo do Islã, por meio das Cruzadas. Através dos caminhos abertos pelos cruzados, novas idéias religiosas e filosóficas penetraram na Europa. O Islã, que assimilara muitos elementos da filosofia grega, da religiosidade persa e do cristianismo herético da Síria e do Egito, acumulara uma riqueza intelectual diante da qual o Ocidente se mostrava pobre e ignorante. Por volta de 1200, a cristandade foi abalada por várias heresias. Na sede de retorno ao Evangelho, muitos grupos caíram no erro da contestação e rejeição à Igreja oficial. Vejamos alguns destes movimentos. Os cátaros, isto é os “puros”, também chamados albigenses, por causa do seu centro principal, a Cidade de Albi, no sul da França, formavam o grupo de maior fanatismo; era o movimento herético mais difundido e mais perigoso. Eram adeptos da antiga concepção maniqueísta, segundo a qual havia no mundo duas potências absolutamente separadas, que disputavam a hegemonia: o poder do bem, identificado com a divindade, puramente espiritual, e o poder do mal, inteiramente autônomo e identificado com a matéria. Uma figura como Cristo, espírito feito carne, não se enquadrava em tal sistema. Para eles, a alma vivia no corpo como numa prisão. A heresia dos cátaros significava, no fundo, uma declaração formal de guerra à Igreja, ao Estado e à sociedade. O simplismo do sistema explica sua grande atração. Isso vale igualmente para sua prática moral. Os cátaros pregavam a mais radical abjuração das coisas terrenas: absoluta pobreza, ligada a uma total abstinência sexual. Não só se recusava o matrimônio, devido à pecaminosidade do ato sexual, mas também se proibia o consumo de carne e ovos. Aqueles que praticavam essa moral exagerada constituíam a elite da Igreja cátara, os “perfeitos”. Seu número era reduzido, mas tinham grande influência sobre o povo, pois ensinavam que esta precisava apenas crer na sua doutrina, sem praticá-la, para participar do triunfo final dos “perfeitos” sobre o mal. Os Valdenses, fundados por Pedro Valdo, procedentes de Lião, tinham sido aprovados por Alexandre III em 1179. Permitiu-se-lhes fazer o voto de pobreza, porém era-lhes vedado pregar sem licença do ordinário. Logo se defrontam com a hierarquia, por se dedicarem à pregação livre e à vulgarização da Sagrada Escritura. Foram excomungados por Lúcio III em 1185. Ensinavam que todo fiel cristão que observava o Evangelho é sacerdote e que, por outro lado, são inválidos os atos realizados por um sacerdote indigno. Inicialmente, o desejo dos valdenses era restabelecer a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder influir mais eficazmente sobre o povo com a palavra e com o exemplo. Em 1218, uniram-se aos “pobres lombardos” ou patarenos que, desde meados do século XII se tornaram conhecidos por sua reação violenta contra os escândalos do clero. Gozavam de grande aceitação, particularmente entre as corporações de artesãos. Os valdenses eram também chamados “pobres de Lião”.  Os “Humilhados da Lombardia” foram na origem (1178) um agrupamento piedoso de gente humilde que, sem fazer voto algum e sem vínculos de vida comum, associavam-se no trabalho diário. Também eles se deram à pregação e também foram excomungados. O papa Inocêncio III, com o tato que possuía para aproveitar para o bem da Igreja todos os elementos úteis, reconciliou-os e lhes deu uma Regra em 1201. Então, dividiram-se em três grupos: um de homens e mulheres que permaneciam em suas próprias casas; outro, cujos membros, homens e mulheres, levavam vida de comunidade, separados entre si, mas sem deixar de ser leigos; e finalmente, o grupo dos clérigos e leigos de vida comum, que constituíam uma verdadeira Ordem religiosa. Os agrupamentos dos Humilhados assemelhavam-se muito ao movimento dos beguinos e beguinas, iniciado por esta mesma época, na região dos Flandres. Os  “Pobres Católicos” formavam dois grupos, um fundado no reino de Aragão por Durando de Huesca e o outro fundado na Lombardia por Bernardo Primo.
Com essa descrição mais detalhada sobre os movimentos heréticos, podemos tirar duas conclusões interessantes relativas a São Francisco e Santa Clara:
l. Porque é que os irmãos, ao invés de se chamarem “Irmãos Menores” não chamavam “Irmãos Pobres”? As irmãs desde o início se chamam “Irmãs Pobres”. O motivo está  no fato de que Francisco não queria se confundir com esses movimentos heréticos, que também lutavam pela pobreza, pois alguns se chamavam “pobres”. Com as Irmãs não havia este problema, pois elas ficavam reclusas em São Damião.
2. Logo que Santa Clara deixou a casa paterna e foi recebida em Santa Maria dos Anjos, Francisco tratou de levá-la para um Mosteiro de Beneditinas. Por que? Também para não se confundir com esses movimentos heréticos que, em alguns ramos moravam homens e mulheres juntos. Interessante lembrar que Frei Estêvão de Narni diz que São Francisco levara todos os seus primeiros noviços para passar um período servindo em mosteiros.

Os mendicantes inauguram um novo ciclo de vida religiosa. Não é uma simples reforma da vida monástica, mas uma autêntica inovação. Diversas Ordens são agrupadas sob o nome de mendicantes: Carmelitas, Ermitões de Santo Agostinho, Servitas, Franciscanos, Dominicanos. O cônego espanhol Domingos de Gusmão (fundador dos Dominicanos ou Ordem dos Pregadores, O.P.) tentara deter a heresia dos albigenses, no sul da França, através de sua pregação. O sucesso foi pequeno, mas ele aprendeu algo importante, que explicava o êxito dos “perfeitos”. Em primeiro lugar, este se devia à pobreza radical dos cátaros, que contrastava violentamente com a vida luxuosa e acomodada de grande parte do alto clero; em segundo lugar, à imensa ignorância religiosa da maioria dos sacerdotes e fiéis. Tal constatação, brotada da experiência, foi decisiva para a elaboração das linhas diretrizes da nova Ordem. Os dominicanos deveriam viver em total despojamento, não apenas rejeitando toda posse individual, como nas outras Ordens mendicantes, mas recusando também qualquer propriedade coletiva. Deveriam viver das esmolas do povo cristão. Além disso, não se retirariam nos conventos, mas trabalhariam entre o povo, como pregadores. A fim de poder exercer bem tal ministério, Domingos reservou na Ordem um lugar de destaque para o estudo.
Enquanto Domingos, desde o início, enfatizou o estudo e a pregação, Francisco de Assis tornou-se a expressão viva e eloqüente do ideal de pobreza evangélica. Quais eram, afinal, os planos de Francisco? Ao mesmo tempo simples, despretenciosos e grandiosos: ter a coragem de viver, ao pé da letra, as palavras evangélicas sobre a Pobreza. Sustentando-se pelo trabalho e as esmolas, queria percorrer a Itália junto com alguns seguidores, a fim de ensinar o povo, pelo exemplo e pregação, a verdadeira pobreza, como condição essencial para a vivência da Boa-nova. Não queria fixar-se num determinado local, pois a construção de conventos incluiria quase necessariamente a posse e o perigo da acomodação. A prática da pobreza como ideal de vida é algo atraente: os cátaros tinham conseguido conquistar o povo desse modo. Em Francisco, entretanto, a vivência da pobreza evoluiu para uma nova espiritualidade. Ele não desprezou o humano e o terrestre, como fizeram os cátaros. Nele, pobreza e despojamento se revestiram de alegria. A pobreza é cantada como esposa, por ele que foi um poeta por excelência, um homem medieval - no melhor sentido da expressão - que reconhecia em tudo a presença amorosa de Deus. Tendo encontrado Cristo na pessoa do mendigo leproso - quando ainda jovem, esbanjava o dinheiro de seu pai, colocando em perigo o próprio nome da família - desde aquele momento passou a ver em todos os homens a figura do Salvador. Reconhecia o amor de Deus nas flores e nos animais, sentimento que expressou, já  no fim da vida, no famosíssimo Cântico do Sol, nunca superado. Foi sua missão específica mostrar aos homens de seu tempo que um único caminho conduz ao conhecimento de Deus: o sair de si mesmo, o despojamento existencial. Sua vida expressou esse ideal, na pobreza abraçada voluntariamente e com alegria, experiência que Francisco quis compartilhar com os outros. Sua obra obteve êxito inesperado. Em poucos anos, a Ordem contava com milhares de membros, espalhados por todos os passes da Europa: um exército de religiosos, indo de cidade em cidade, de região em região para pregar a Boa-nova de Cristo e do seu Reino.
Com o apoio de Francisco, Clara fundou a Ordem das Clarissas. Outra ramificação franciscana foi a chamada Ordem Terceira, destinada a leigos. Na carta introdutória sobre a Legenda de Santa Clara, escrita por Frei Tomás de Celano, podemos ler um resumo da mentalidade da época sobre o mulher: “E não convinha que faltasse ajuda ao sexo mais débil, pois colhido no abismo da concupiscência, não era atraído ao pecado por menor desejo. Antes, a maior fragilidade bastante o impelia”. Desde os povos mais antigos, inclusive os judeus, aparece a realidade da mulher como escrava do homem. Havia, inclusive, uma oração judaica que os rabinos deviam rezar três vezes ao dia: “Bendito seja Deus, que não me fez nascer pagão; bendito seja Deus que não me fez nascer escravo; bendito seja Deus que não me fez nascer mulher”. Jesus veio proclamar a mesma dignidade humana do homem e da mulher. Dignificou sobremaneira a mulher, querendo Ele mesmo “nascer de uma mulher” (Gl 4,4). E São Paulo pôde ensinar que “não há  mais nem homem e nem mulher, mas sois todos um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28). Na Igreja primitiva, a mulher participava ativamente da comunidade eclesial e da obra da evangelização. Nos Atos dos Apóstolos vemos as mulheres e os homens trabalhando lado a lado na construção do Reino. Mas assim mesmo, pouca coisa mudou na maneira de compreender o sentido e o papel da mulher. Basta citar uma pequena passagem de um dos Santos Padres do Século III: “A mulher‚ um templo edificado sobre uma cloaca... Mulher, és a porta do diabo; persuadiste aquele que o diabo não ousava atacar de frente. Foi por tua causa que o Filho de Deus teve de morrer. Tu deverias fugir sempre vestida de luto e de farrapos” (Tertuliano). Também Santo Tomás de Aquino, já  no século XIII, ensina: “A mulher‚ um homem diminuído. Não é a mãe que engendra aquele que chamamos o seu filho. Ela é apenas a nutriz do germe derramado em seu seio. Quem engendra é o pai”. Com raras exceções a mulher foi sempre uma presença silenciosa na sociedade. E esta realidade vigorou pelos séculos.
Vemos, portanto, na época de São Francisco e de Santa Clara, as mulheres sendo consideradas como as mais fracas e mais inclinadas ao pecado, por isso devem ser trazidas à rédea. O dever primeiro do chefe da casa era vigiar e corrigir sua mulher, suas irmãs, suas filhas, as viúvas e as filhas órfãs de seus irmãos, de seus primos e de seus vassalos.  O poder patriarcal sobre a feminilidade via-se reforçado pelo fato da mulher representar o perigo. Os homens estavam persuadidos da perversidade estrutural da natureza feminina: achavam que a mulher estava sempre entregue ao aguilhão inevitável do desejo da cuncupiscência da carne. Tentava-se conjurar esse perigo ambíguo encerrando as mulheres no local mais fechado da casa, chamado “quarto das damas”, que era um lugar de desterro. Para a parte feminina da família estavam destinadas as tarefas específicas, pois era preciso que estivessem ocupadas, sendo a ociosidade considerada particularmente perigosa para esses “seres demasiadamente fracos”. O ideal era uma divisão equilibrada entre a oração e o trabalho, o trabalho do tecido. No quarto, as mulheres fiavam e bordavam. Das mãos femininas saíam, de fato, todos os enfeites do corpo e os tecidos ornamentados que decoravam o próprio quarto, a sala e a capela.
A mulher é considerada como um objeto que tem algumas funções fundamentais. Nas grandes festas a mulher é introduzida na sala senhorial para a dança de roda e o banquete. Mais comum, porém, é encontrá-la no quarto, retirada, onde trabalha, reza e cumpre sua função de reprodução... aumentar a família. Mas neste mesmo século XIII aparece um modo novo de apresentar a mulher. É a mulher “idealizada”. É a “dominae”, que nas línguas neo-latinas criou os termos: “madonna” (italiano), “dona”(português), “dame” (francês). É a mulher envolta em mistério, como imagem do “eterno feminino”, entremostrada através das venezianas e cortinas, purificada de todos os contornos terrenos e objeto dos “galanteios” de seus admiradores e cantadores. Era a mulher normalmente inatingível. Só os grandes heróis podiam conquistá-la. No entanto, na sociedade daquele tempo e na vida e cada dia, a mulher não mudou nada em seu lugar e em seu conceito. Ela ‚ o “homem diminuído”, “sexo frágil”, “doce veneno” da tentação. A “dominae” ‚ o sonho dos trovadores e desafio para a conquista do cavaleiro herói. Figura de grandes romances e poemas heróicos. Era um tempo em que os grandes senhores estavam preocupados e envolvidos só com as guerras. Mesmo a família de Santa Clara, que era toda composta de militares. Os jovens se alistavam para ir lutar. As guerras, as armas, as disputas... toda a sociedade estava mergulhada nesta realidade. Neste contexto, as mulheres eram vistas como as que não servem para nada, pois não podiam ir lutar. E sendo frágeis de corpo, a conseqüência que tiravam é que eram fracas também espiritualmente. Assim como os jovens ainda incapazes de usar armas, as crianças e os inválidos, as mulheres dependem do poder do seu senhor, são os objetos de sua propriedade. Estão submetidos em tudo ao poder do dono da casa e pouco contato têm com o mundo. As poucas vezes que saíam, por exemplo, para alguma cerimônia ostentatória ou para as devoções, eram escoltadas e acompanhadas de “vigias”. É fácil perceber como o feminino encontrava-se colocado sob o inteiro domínio do masculino. Era importante ter uma mulher por esposa, para ser a mãe dos herdeiros, mas como o primeiro dever do senhor era fazer a família crescer, mais e mais, ele tinha geralmente muitas mulheres. Quer dizer, a mulher era vista, somente pelo fato de ser necessária, por suas capacidades genéticas, para contribuir de maneira decisiva para a extensão da casa... gerar filhos.
E apesar de toda vigilância, ou talvez até por causa dela, muitas mulheres levavam mesmo uma vida promíscua, mas não somente elas. Também os homens. Era uma imoralidade camuflada. O início da I Vida de São Francisco, escrita por Frei Tomás de Celano, mostra de maneira bem clara, se bem que um tanto exagerada, a vida depravada que levavam muitos que se diziam cristãos. Neste contexto percebe-se melhor porque as Irmãs, durante o Processo de Canonização, insistem tanto no fato de que Clara “entrou virgem no Mosteiro e virgem permaneceu sempre”. Quase todas as Irmãs salientam isso que, para nós parece óbvio. Mas olhando a situação da época, podemos perceber que Clara foi diferente e que sua postura, cheia de dignidade e retidão, chamava a atenção.



Francisco, apesar de em muitos aspectos ser fruto de seu tempo, é também totalmente original e único em outros. Chegou até a antecipar-se ao seu tempo, resgatando a mulher por sua fraternal atenção a ela, que não era atitude conhecida pelo homem da época. À primeira vista, a descrição que nos faz Celano da relação de Francisco com as mulheres, não poderia ser mais negativa: “Mandava que se evitassem a todo custo familiaridades com mulheres, as quais chegam a enganar alguns homens santos”. Na Crônica de Lanercost, segundo o testemunho de Frei Estêvão, diz-se que Francisco não queria ter familiaridade com nenhuma mulher, e não permitia que as mulheres usassem com ele de modos familiares; somente a Clara parecia ter afeto. E ainda, quando falava com ela ou sobre ela, não a chamava por seu nome, mas a chamava de “cristã”. Mas será que estas descrições hagiográficas respondem à verdadeira atitude de Francisco com relação às mulheres? Ou será que se trata de uma deformação piedosa, fruto do crescente culto que se desenvolvia em torno do santo? A princípio, temos que admitir que o esquema utilizado pelos biógrafos para descrever a figura de Francisco ‚ o já tradicional neste tipo de literatura de vida angélica, sobretudo no que diz respeito à castidade. Pelos escritos de São Francisco, nota-se um grande respeito para com a mulher. Ele exorta os irmãos a manterem o equilíbrio sadio no relacionamento com as mulheres: não ter “relacionamentos suspeitos” com mulheres, evitar “maus olhares” e a “freqüentação de mulheres”, não entrar em mosteiros de freiras, sem a licença especial da Santa Sé Apostólica, não se façam compadres de homens ou mulheres, para que daí não resultem escândalos entre os irmãos ou por causa dos irmãos. Por estas passagens de seus escritos pessoais, não se percebe um conceito negativo sobre a mulher, mas o cuidado no relacionar-se com ela. Isto se dá  também, pelos excessos dos movimentos heréticos que, em alguns ramos foram motivos de escândalos, por interpretarem grosseiramente algumas passagens das epístolas paulinas. O escândalo maior foi a promiscuidade sexual desses movimentos. Francisco, com suas exortações acerca do relacionamento com as mulheres, queria salvaguardar a boa fama da sua Ordem. Mas com isso, não se pode afirmar que Francisco tenha tido sempre uma visão inteiramente  positiva sobre a mulher.
Ele não podia pensar, num contexto do século XIII com os conceitos da segunda metade do século XX. Podemos crer que houve uma evolução no seu modo de pensar, primeiramente pela experiência tão positiva com sua mãe e, depois, sobretudo pelo contato com Clara e suas Irmãs, com Jacoba e com Praxedes. No seu Testamento, Clara escreve: “Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação, nem humilhação ou desprezo do mundo, e até julgávamos tudo isso as maiores delícias, como pôde comprovar frequentemente em nós a exemplo dos santos e dos seus frades, alegrou-se muito no Senhor”. Este mesmo trecho encontramos no capítulo VI da Regra. A surpresa de São Francisco ao ver que Clara e as Irmãs podiam suportar sacrifícios pode ser um bom argumento para mostrar que houve uma evolução na sua mentalidade com relação à mulher. Francisco confirma, por seus Escritos, a experiência grandemente positiva que fez do feminino, no relacionamento com sua Mãe. Inúmeras vezes ele se utiliza da imagem “Mãe-Filho” para dizer aos Frades como deve ser o relacionamento entre eles. Na Regra dos Eremitérios, “dois sejam mães e tenham dois ou ao menos um por filho”... Na Regra não bulada lemos o mesmo pensamento: “se uma mãe ama e nutre seu filho carnal, com quanto maior diligência não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual!” A palavra Mãe está fortemente associada à idéia de ternura, de dedicação, de serviço. Por isso, algumas vezes vemos também São Francisco chamando a si mesmo de Mãe: “Assim te falo, meu filho, como uma mãe” (Bilhete a Frei Leão).
Outra figura feminina constante na maneira de Francisco expressar seu carisma, é a da Esposa. Veja-se os seus desponsórios com a Dama Pobreza. Não há  poeta e nem pintor que não tenham ficado fascinados por este matrimônio original e que não tenham cantado este acontecimento. Este tema das Núpcias com a Pobreza está  presente em todos do biógrafos de Francisco. Francisco, segundo as suas biografias, recorreu muitas vezes à imagem da Mulher, ora para fazer alguma comparação, ora para tentar  explicar algo mais profundo. Quando Francisco pediu a Inocêncio III a aprovação de sua Fraternidade, segundo conta Celano, o fez por meio de uma par bola: “havia no deserto uma mulher pobrezinha, mas muito formosa...” (2 Cel l6, Fontes Franciscanas). A parábola não é original, pois já  aparece em outros textos daquele tempo: mas o simples fato de citá-la ou pô-la em sua boca, indica a mentalidade de Francisco a respeito da mulher como símbolo.
Têm-se feito diversas leituras sobre a identidade desta mulher pobre, mas bela, que é capaz de engendrar filhos do próprio rei e educá-los no deserto. Uma delas é ver Maria como mulher pobre, mas bela, que convertida em símbolo da “Mãe Igreja” recupera a humanidade fazendo dos homens herdeiros do Reino. Deste modo é a mulher primordial, a antítese de Eva, que dispõe de todos os poderes constitutivos da humanidade. Mas a mulher da parábola tem outra leitura, que é a da sabedoria de Deus encarnada na pobreza. A pobreza para Francisco não é uma simples virtude, mas a forma de encarnar-se o Filho de Deus e a expressão de seu Evangelho. Daí que, apesar de ser repudiada por todo o mundo, Francisco decidiu abandonar pai e mãe para desposar-se com ela com um amor eterno (2 Cel 55, Fontes Franciscanas). Na Legenda dos Três Companheiros, Francisco diz que é ele essa mulher da parábola. Celano confirma. Outro relato de Celano é o das três mulheres pobres que aparecem misteriosamente a Francisco, para saudá-lo de uma forma um tanto rara: !Bem-vinda, Senhora Pobreza!” (2 Cel 93, Fontes Franciscanas). Este relato põe em relevo que o santo considerava a pobreza como o arquétipo de sua opção pelo Evangelho; idéia que São Boaventura reforça ao dizer que Francisco costumava chamá-la “umas vezes com o nome de mãe; outras, de esposa assim como de senhora” (LM 7,6). Mãe, esposa e senhora; três formas de ser da mulher capazes de manifestar a pobreza de Cristo, e que Francisco utilizar  como símbolo de sua opção evangélica. Mas este universo feminino, como âmbito e expressão da salvação, se percebe ainda mais na Saudação às Virtudes, onde Francisco canta “a rainha sabedoria e sua irmã a simplicidade; a senhora pobreza com sua irmã a humildade; a senhora caridade com sua irmã a obediência” (Cf. Fontes p. 166).
A sublimação do feminino por parte de Francisco, até convertê-lo em símbolo da salvação, é a chave para compreender sua atitude para com a mulher. A partir de sua cultura cortês olha-a como a dama que merece todo seu amor, mas ao mesmo tempo, todo o seu respeito. A pará bola do rei que enviou à rainha dois embaixadores, descreve perfeitamente esta atitude. Diante da exaltação da beleza da rainha por parte do segundo, lhe replica o rei: “Servo mau, puseste teus olhos impuros em minha esposa? Está  se vendo que querias comprar o que estiveste olhando sorrateiramente.” E ao interrogar o primeiro sobre a beleza da rainha, este respondeu: “Isto sois vós que deveis olhar, senhor. Minha obrigação era levar o recado”. Então o rei Disse: “Tu que ‚s casto de olhos, continuarás a meu serviço, porque és ainda mais casto no corpo! Mas este outro seja posto fora, para não me desonrar o tálamo!” (2 Cel 133, Fontes Franciscanas). Com esta parábola, Francisco quer mostrar dois modos de relacionar-se com o feminino: um, o do homem impuro e desonesto, é o que vê o feminino como objeto de posse, de desejo, de prazer; o outro, o do homem honesto e casto, é o modo que se coloca diante do feminino no respeito e na reverência ao mistério que o feminino desvela. Trata-se de uma parábola que Francisco usa para explicar a passagem do Evangelho: “Todo homem que olhar uma mulher desejando-a, já  adulterou com ela em seu coração” (Mt 5,28). Note-se que esta passagem é citada nos escritos de Francisco, exatamente onde se regula o relacionamento dos frades com mulheres. Este olhar puro para a mulher se faz mais respeitoso quando se trata de mulheres consagradas. Ante a presença de uma jovem virgem consagrada a Deus, que acompanhava sua mãe, Francisco se limitou a falar-lhes de coisas espirituais, mas sem fixar o olhar nelas. Quando, posteriormente, o companheiro lhe perguntou porque não havia olhado para a virgem santa que tinha vindo a ele com tanta devoção, Francisco respondeu: “Quem não deve temer olhar para uma esposa de Cristo?” (2 Cel l44, Fontes Franciscanas). O distanciamento com respeito à mulher, em que colocam os biógrafos, contrasta com sua proximidade natural como taumaturgo.
A mulher para Francisco, apesar de estar envolvida num ideal poético-religioso, não é um ser fantasmagórico. Possivelmente se relacionou de forma natural com elas. No episódio dos bonecos de neve, convertidos por Francisco em sua família, o perigo não é a mulher como tal, mas a forma superficial de vê-la. Nesta descrição se evidencia uma intenção lúcida de auto-convencimento de que o exercício de uma vida sexual responsável, como é a matrimonial, além de ter suas próprias gratificações, comporta também uma série de sacrifícios E nisto consiste, precisamente, a tentação, em pretender distorcer a opção matrimonial tomando de forma irresponsável somente seu aspecto gozoso. Esta visão da mulher como objeto exclusivo de prazer é o que impede entregar-se com toda a solicitude ao serviço de Deus (2 Cel 117, Fontes Franciscanas). A imagem que Francisco tem da mulher não é, portanto, romântica. Vista a partir de uma cultura cortês, se aproxima dela com respeito, mas com realismo. Ao menos é isto que se deduz de sua amizade com Praxedes, Jacoba e Clara, amizades que, por si só, são suficientes para descrever sua relação afetiva com elas. Da primeira nos fala Celano em seu Tratado dos Milagres: “Praxedes, famosíssima entre as religiosas de Roma e do império romano, esconde-se desde a infância num reclusório austero e vive nele por quarenta anos por amor de seu Esposo eterno, merecedora por isto de singular confiança de São Francisco. Francisco recebe-a à obediência - coisa outorgada a nenhuma outra mulher - e lhe concede o hábito da Ordem, ou seja, túnica e cordão”. Havendo fraturado a perna numa queda, e  sem ninguém que a socorresse, queixa-se afetuosamente com São Francisco e lhe diz: “Pai meu caríssimo, tu que acodes bondoso e alivias a tantos quantos nem sequer conheceste em tua vida, porque não vens socorrer a esta miserável, que já quando vivias neste mundo mereceu de alguma forma tua dulcíssima graça?” Dominada pelo sono em meio a um êxtase aparece-lhe Francisco, revestido de reluzentes vestes brancas de glória e lhe fala com ternura: “Levanta-te, filha bendita, levanta-te e não temas”. “Jacoba de Settesoli, dama romana nobre e santa, mereceu o privilégio de um amor singular da parte de Francisco, Este, próximo já  de sua morte, quis enviar-lhe uma mensagem a Roma para que viesse depressa se quisesse ver vivo aquele que havia amado tanto em sua condição de exilado. Escreveu-se uma carta, procurou-se um mensageiro capaz de ir a todo galope a Roma. Descobriu-se uma pessoa que se dispôs a partir imediatamente. Diante da porta, no mesmo instante, ouvem-se os cascos de cavalos chegando, o estrépito de soldados e o rumor de uma comitiva. Um dos companheiros do santo, justamente aquele que preparava a partida do mensageiro, vai abrir a porta: encontrava-se diante daquela que ele pretendia mandar chamar. Maravilhado como estava, corre para o santo e, sem se conter de tanta alegria, lhe diz: “Boas novas, pai!” Antes mesmo de ouvir o que o outro lhe ia dizer, o santo responde imediatamente: “Bendito seja Deus que nos enviou nosso irmão, Senhora Jacoba! Abri as portas e introduzi-a, pois o artigo que proíbe a entrada de mulheres não vale para Frei Jacoba” (3 Cel 37, Fontes Franciscanas)
Com Clara, podemos afirmar certamente que as relações eram de estima, de compreensão profunda e de afeto intenso. Não pensemos somente numa relação de pai espiritual com sua filha, mas tudo indica que, acima de tudo, estava uma relação de colaboração. Clara não só recebia ensinamentos e orientações de Francisco, mas ela também teve grande influência na espiritualidade de Francisco. Sua vocação decididamente ser  inspirada pelo nascente movimento franciscano. Porém, o novo caminho espiritual que Clara irá  trilhar deverá traduzir seu ser feminino e se definirá, além disso, como próprio, original, único: marcantemente clariano. No início da Legenda, Tom s de Celano, atribui a Clara o título de “nova líder das mulheres”. Ela era diferente de todas as outras. Sua conduta era admirável. Testemunhos como estes, são numerosos no Processo de Canonização. Mostram sua definida opção contemplativa inebriada de alegria, seu serviço humilde e terno, sua pobreza radical, enfim, sua fibra de mulher que soube lutar por aquilo a que se propôs. Nos seus contatos com bispos, cardeais e papas, deixa-se entrever a sua personalidade firme e consciente de um chamado evangélico a desenvolver. A troca de vida feita por Clara, que se afirma como escolha sempre mais consciente e radical, tem conseqüências bem definidas para o seu contexto e vai influenciar grandemente a sua época. A Europa inteira é tocada pelo contágio de seu gesto e numerosas mulheres iniciam um tipo de vida inspirado naquele iniciado por Clara. A força da personalidade de Clara encanta e ilumina. Isto porque traz a marca de uma profundidade e de um equilíbrio grandiosos. Clara demonstra ser, desde muito jovem, uma mulher firme e decidida. A determinação com a qual enfrenta as oposições à sua decisão e posteriormente ao seu ideal de pobreza absoluta, define estes traços de firmeza e decisão na psicologia clariana. Acima de tudo, mostra em si a dinâmica de quem sabe envolver atitudes radicais numa serenidade consciente e comovente, advinda de sua objetividade, clareza, realismo e linearidade de idéias. Dito mais brevemente: Clara luta com afinco pelos seus ideais, mas com fineza, delicadeza, sem magoar ou ferir ninguém. O seu perfil feminino, maternal e sororal se delineia especialmente na sua capacidade extrema de compreensão, acolhimento, ternura, afeto. As fontes revelam em abundância suas atitudes e sua postura amorosa, atenta e serviçal. Em sua feminilidade autêntica, bonita e elegante, possuidora de uma sensibilidade profunda, soube crescer em maturidade psicológica, integrando a radicalidade do amor a Deus com as mais vivas expressões do puro amor humano. Madura, despojada, pobre e livre, Clara ‚ o protótipo da mulher disponível diante da plenitude de Deus. Porque está  aberta totalmente em sua psicologia integrada e sensível, é capaz de experimentar-se como “peregrina”, caminhante em busca do Reino que vem. Exatamente todo o seu ser de mulher é colocado à disposição deste Reino que já  se faz presente na comunhão de vida que ela vive com as suas  irmãs, com todos os homens e com as criaturas todas de Deus. Entre todos os aspectos proféticos da missão de Clara, salienta-se o de mostrar às mulheres de seu tempo e de todos os tempos o caminho para realizar, na vida religiosa, a tríplice vocação de esposa, de mãe e de irmã, componentes essenciais da feminilidade.
Ao alvorecer do século XIII, começava a esfacelar-se a unidade do Império Germânico e entrava em crise a contextura feudal da sociedade, como já  vimos nos Módulos anteriores. Na Itália e nas regiões da Europa, abertas ao tráfego marítimo, surgia uma nova força, debatendo-se contra essas duas instituições medievais: a Comuna. Era constituída pela nova classe social dos artesãos e comerciantes, com  uma nova dinâmica urbana de tendência democrática, com uma nova economia monetária, com sua mobilidade oposta à estabilidade latifundiária e, também, com novos delineamentos éticos e novas exigências religiosas. Para além dos Alpes, despertavam as novas nacionalidades de aspirações incompatíveis com a unidade da “civitas Christiana”. O choque entre papado e império, expoentes máximos daquela unidade, seria para ela, ainda no século XIII, o golpe de misericórdia. O sinal do surgimento de um povo novo, com uma cultura nova, era o romance (língua popular), que ia afastando o latim da vida pública e da literatura popular. Entre os feudalismo e a comuna, entre o ocaso do império unitário e o surgimento das nações, entre a língua culta e a língua vulgar, Francisco de Assis, encarna as virtudes ativas e construtivas do burguês filho do povo e, ao mesmo tempo, os sonhos cavalheirescos e a ânsia de renúncia a uma época em declínio. Enlaça duas épocas e reúne todos os contrastes daquele século de transição. A comuna, ao mesmo tempo que se subtraía à hierarquia feudal, situava-se também fora da órbita do monaquismo que, com sua influência benéfica, tinha sido a força civilizadora e catequizadora da sociedade européia na alta Idade Média. Para os cidadãos que trabalhavam e se agitavam no município, a abadia era tão inacessível como o castelo fortificado do senhor da terra.
Em lugar dos monges, eram obscuros reformadores que se aproximavam do povo com seus princípios de retorno ao Evangelho, de pobreza, de comunhão de bens, de compromisso fraterno; mas também com atitude de contestação e rejeição à Igreja oficial,  como foi o caso dos movimentos heréticos.
Francisco de Assis nasceu na cidade de Assis, na Úmbria, em 1181 ou 1182. Era filho do mercador Pedro Bernardone, que lhe trocou o nome de batismo, João por Francisco. Depois de uma juventude alegre e mais ou menos descompromissada, com a idade de 25 anos, sentiu-se mudado pela graça divina, transformação que ele atribuía ao fato de se ter superado, dedicando-se à assistência dos leprosos, para junto dos quais o “levou o Senhor” (Testamento 1). Um dia, enquanto rezava diante da imagem do Crucificado, na igrejinha em ruínas, de São Damião, ouviu a voz de Cristo que lhe ordenava:  "Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja!” Sucedeu, depois, o rompimento com o pai e a renúncia total diante do Bispo. Durante três anos, mendigando o sustento e tido como louco, dedicou-se a reconstruir igrejas nas imediações de Assis, até que um dia, em 1209, ao escutar a leitura evangélica da missão dos discípulos, descobriu sua vocação definitiva: “Viver segundo a forma do Santo Evangelho” (Testamento).  Abandonou o traje de peregrino, que até então havia usado, e apresentou-se vestido de uma túnica simples, cingido com uma corda, e com os pés descalços, anunciando o Reino de Deus e convidando à conversão. Foi nessa ocasião que se juntaram a ele os primeiros companheiros, dispostos a compartilhar a mesma vida: Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani, Egídio de Assis... Homem de constituição delicada e de fino temperamento, Francisco era dotado de agradável sensibilidade e imaginação fecunda, não menos que de inteligência penetrante, capacidade de reflexão e vontade decidida, se bem que não estivesse isento dos altos e baixos de seu nervosismo natural. A isto acrescia-se um sentido de concretude e de intuição imediata das situações da vida, junto com uma atitude ingênua e livre perante as pessoas e os acontecimentos, que o faziam ser sempre igual a si mesmo. Alma de poeta, amava a vida e a natureza, sabia captar a linguagem das coisas e, sob o influxo da fé, descobria, sem esforço, a realidade de Deus em tudo o que existe. Por nascimento, pertencia à nova sociedade dos artesãos e comerciantes que abria caminho na vida pública dos municípios italianos; por‚m, seu temperamento cavalheiresco o fazia sintonizar com o ambiente feudal dos cantos de gesta e com as virtudes humanas da cavalaria andante: cortesia, lealdade, liberalidade, valentia, compaixão pelos seres d‚beis e indefesos. Em sua vida, vemos alternar-se o impulso incontido da ação, ao percorrer o mundo, e a atração pela solidão e pela intimidade fraterna e sossegada. Possuía a cultura m‚dia dos que, não tendo cursado o “trivium” e o “quadrivium”, não podiam figurar entre os clérigos ou literatos. Gostava de chamar-se de simples e inculto, contudo não era um ignorante; dominava bastante bem o latim corrente, que havia cursado na escola da igreja local de São Jorge; cantava em língua provençal; entendia de romances e trovas e, sobretudo, lia e meditava a Bíblia, principalmente o Novo Testamento. O primeiro grupo que se reuniu a Francisco tomou consciência de si mesmo e do compromisso evangélico, alojado no rústico abrigo de Rivo Torto; logo organizaou a primeira saída apostólica; Bernardo e Pedro, por um lado; Francisco e Egídio, por outro. Logo a fraternidade dos pobres voluntários foi aumentando com novos companheiros. Quando o Fundador achou que o grupo havia entendido suficientemente o sentido da aventura evangélica, mediante a experiência da oração e das privações da pobreza, organizou a primeira missão formal. Dois a dois, marcharam por v rias regiões da Itália, pregando e mendigando o sustento. Os sofrimentos que tiveram de suportar, nesta primeira saída, foram a primeira grande prova dos novos arautos da penitência. Francisco os consolava freqüentemente, durante essa penosa etapa inicial, com a visão otimista de que, com o passar do tempo, um grande número de homens de toda classe social e de toda nação se uniriam a eles. Quando os penitentes de Rivo Torto chegaram a doze, Francisco escreveu a primeira Forma de Vida, denominada pelos historiadores Regra primitiva. Como ele mesmo diz no Testamento, e o sabemos também por outros testemunhos, essa vida se reduzia a uma série de textos evangélicos aos quais se ajustava o programa adotado. Não chegou até nós o texto na redação original; porém, não é difícil reconstruí-lo tomando como base a Regra não-bulada, o Testamento e as Fontes Biográficas. Os pontos fundamentais eram: o compromisso de viver de acordo com o Evangelho, a pobreza absoluta do grupo, o estado permanente de missão penitencial, saindo pelo mundo sem provisões de nenhuma espécie; os meios de vida eram o trabalho e a esmola.
Francisco pensou, então, que era chegado o momento de obter a aprovação da Igreja de Roma e todo o grupo empreendeu a viagem para a capital da cristandade. Lá encontraram Guido, o Bispo de Assis, que os apresentou ao Cardeal João de São Paulo. Este, antigo cisterciense, quis persuadí-los a ingressar em algum mosteiro ou a se retirar para a vida eremítica. Francisco negou-se com firmeza e acabou por ganhar o cardeal a favor de sua causa. Na Cúria romana a oposição foi grande, mas ao final venceram os esforços do cardeal de São Paulo, a visão clara de Inocêncio III e o idealismo de Francisco que alegava o direito de tomar a sério o Evangelho. A nova Ordem foi aprovada, na primavera de 1210. O cardeal de São Paulo, com autorização do Papa, conferiu aos doze a tonsura clerical que lhes garantia a imunidade eclesiástica. De volta a Assis, um pequeno incidente obrigou-os a abandonar o refúgio de Rivo Torto. Francisco obteve, então, a abadia cluniacense do Monte Subásio a cessão da Porciúncula, onde ele descobrira sua vocação evangélica. Daí em diante, seria o centro da fraternidade. Em torno da capelinha de Santa Maria dos Anjos levantaram cabanas de barro e galhos para se abrigar. No início, para se identificarem perante o povo, os componentes do grupo adotaram o nome de penitentes de Assis. A seguir, parece que pensaram em chamar-se pobres menores; percebendo, porém, o perigo que essa denominação comportava, numa época em que tantos ostentavam a pobreza como bandeira de contestação, Francisco optou pelo nome de Frades Menores. Fraternidade e minoridade resumiam bem o ideal evangélico. Sebatier e outros quiseram ver nesta denominação um importante aspecto social e político do movimento franciscano com relação ao conflito existente entre maiores ou nobres e os menores ou burgueses, como se Francisco tivesse feito uma opção de classe. E foi precisamente em 1210 que se deu a reconciliação entre os dois partidos antagônicos. Levando em conta que aqueles menores constituíam a classe endinheirada dos municípios, de aspiração bem pouco evangélica, e não o povo simples, as raízes que moveram o Fundador devem ser buscadas nos textos evangélicos que falam de humildade, de espírito de serviço e desejar o último lugar. J  na Regra primitiva se dizia: “E sejam menores” (1 Cel 38). Em 1212, foi unir-se a Francisco, na mesma vida, a jovem Clara de Assis, pertencente à nobre família de Favarone. E nasceu a fraternidade feminina das Damas Pobres, para quem o mesmo Francisco preparou o alojamento junto à igreja de São Damião. Quase ao mesmo tempo, e como resultado da pregação de Francisco e da integração dos Frades Menores à realidade social, foram organizando fraternidades de penitentes, celibatários ou casados, que em suas casas e sem modificar seu modo comum de vida, compartilhavam do mesmo ideal evangélico; este movimento secular ganhou uma organização em 1221, por obra ao que parece, do cardeal Hugolino. Francisco, não contente com levar sua mensagem de paz pela Itália, sentia-se chamado a percorrer o mundo inteiro. Em 1212 planejou ir para a Síria, com o intuito de iniciar uma nova cruzada espiritual ali, onde cristãos e sarracenos se enfrentavam com as armas. Fracassado aquele plano, no ano seguinte se dirigiu à Espanha com a intenção de alcançar as terras dos mouros. Esta tentativa também fracassou por causa da enfermidade contraída na viagem e teve de contentar-se com ir em peregrinação a Santiago de Compostela. Em 1215, celebrou-se o IV Concílio de Latrão. Não consta que Francisco estivesse presente; contudo, autores modernos há que o confirmam, atribuindo a particular devoção do santo pelo sinal Tau à impressão que lhe produziu o discurso inaugural de Inocêncio III, comentando o texto de Ex 9,4-6. O Concílio proibiu a fundação de novas Ordens religiosas; toda nova iniciativa de vida regular devia aceitar “a regra e a instituição de uma das Ordens aprovadas”. Assim teve que fazê-lo a Ordem dos Pregadores, adotando a Regra de Santo Agostinho. Assim o fez também Clara, adotando a Regra de São Bento. Quanto aos menores, por‚m, o Papa Inocêncio III declarou que sua Forma de Vida já  havia sido aprovada anteriormente pela Sé Apostólica.
Não só as Fonte biográficas, mas também cronistas estrageiros da época, de modo especial Jacques de Vitry, põem em relevo a novidade do movimento iniciado por Francisco e do estilo de vida da sua Ordem. À sua experiência espiritual pessoal uniu-se a consciência de Fundador, adquirida de forma muito clara logo que se viu rodeado de companheiros. Não foi inspirar-se em formas preexistentes de vida religiosa, nem teve necessidade de que outros lhe assinalassem qual deveria ser o estilo de vida do grupo. At‚ o fim da vida, defenderia vigorosamente esta originalidade de sua vocação evangélica, frente às pretensões dos que queriam impor-lhe modelos estranhos: “Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que deveria viver segundo o modelo do santo Evangelho. E eu o fiz escrever em poucas palavras e de maneira simples e o senhor Papa mo confirmou" (Testamento). Se Francisco teve pressa em submeter seu carisma de Fundador … aprovação do pontífice romano não foi por alguma inspiração externa, nem por uma reflexão tática inspirada na necessidade de assegurara a aceitação pública da fraternidade, protegendo-se contra a declaração de heresia, mas por exigência de sua própria fé‚ na Igreja hierárquica.
Acertou ao inserir-se, por intuição evangélica, na realidade social e religiosa de seu tempo. Sair do mundo (Testamento) não significava, para ele, encerrar-se num claustro, mas oferecer àquela sociedade, voltada para a produção artesanal e para o comércio, o testemunho vivo e imediato da conversão cristã: uma presença penitencial. Os Frades Menores viveriam no meio do povo, integrados na realidade social, mediante um trabalho remunerado, mediante a oração com a comunidade cristã e a pregação em língua vulgar. E diante da ânsia de lucro dos novos árbitros da vida comunal, dariam testemunho de desprendimento total, em especial do dinheiro. Com isso respondiam aos anseios de sinceridade evangélica que haviam dado origem aos movimentos heterodoxos, distanciando-se, porém, radicalmente deles pela ausência de crítica negativa aos males públicos, pela mensagem de paz e amor e, de maneira especial, pela adesão submissa e filial aos representantes da Igreja oficial: igreja romana, episcopado, clero.
Não há dúvida de que Francisco teve, desde o início, a consciência de estar fundando uma verdadeira Ordem religiosa. Contudo, uma Ordem com carcterísticas muito diversas das instituições monásticas anteriores. A vida segundo o Evangelho, tal como ele deixou plasmada nos escritos pessoais e tal como foi vivida na espontaneidade dos primeiros anos, se caracteriza pelos seguintes elementos:
1. Uma piedade contemplativa e prática, fortemente inspirada no amor, que se manifesta na atitude filial diante de Deus; o Sumo Bem, fonte de todo o bem, na docilidade ao “Espírito do Senhor e à sua santa operação”, na liberdade de espírito, unida à retidão e à pureza de coração, na oração pessoal e comunitária, “adorando a Deus em espírito e Verdade”. A simplicidade e a alegria são parte essencial do clima nitidamente cristão da fraternidade. No início, o Ofício Divino consistia em rezar certo número de Pai-nossos a cada hora canônica, com a jaculatória: “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo...” (1Cel 45). Mais tarde, ao crescer o número de clérigos, estes recitavam o Ofício eclesiástico(ou Ofício Catedral), conformando-se ao uso da Igreja de Roma; os leigos continuavam rezando os Pai-nossos (RnB 3). A oração mental era habitual, porém não estava regulamentada; os frades tinham liberdade para procurar as condições externas que mais favorecessem o recolhimento, mesmo no bosque próximo. Francisco reduziu consideravelmente os jejuns, tradicionais  nas Ordens monásticas, e suprimiu a abstinência perpétua, também em uso. Os frades jejuavam várias quaresmas e, fora delas, todas as quartas e sextas-feiras do ano. E, segundo o Evangelho, podiam comer de todos os alimentos que lhes eram apresentados (RnB 3).
2. O meio fundamental de seguimento a Cristo é a pobreza-minoridade. Pobreza não é somente renúncia aos bens materiais e ao domínio jurídico, mas um compromisso total de insegurança evangélica como grupo, desapropriação interior dos bens pessoais, mesmo internos, em função da caridade, e espírito de serviço para com todos os homens. A fraternidade dos pobres dever  “ir pelo mundo”, levando a mensagem de paz, evitando toda instalação terrena, sendo "peregrinos e forasteiros neste mundo" (RB 6). Os frades menores não moram em conventos. A fraternidade não necessita de teto comum, nem de coro comum, nem sequer de mesa comum: ou seja, a vida comum não conta com essas seguranças, pois a profissão de pobreza não consiste em fazer da renúncia individual um meio de gozar dos benefícios de posse em comum, mas na vida “more apostolorum”, que ‚ libertação plena do grupo, como tal, para o Reino. Para Francisco, mais importante que a pobreza de cada irmão ‚ a pobreza da fraternidade.

3. Fraternidade é a denominação dada pelo Fundador ao grupo, constituído de “irmãos espirituais”, isto é, dóceis ao Espírito e liberdade de toda a apropriação egoística, mediante uma vida pobre e casta. Nesta fraternidade, a igualdade dos irmãos é total, sem diferenças de tipo algum, nem mesmo por causa da sagrada ordenação. As mútuas relações entre os frades estão reguladas pela “porfia de servirem-se e obedecerem-se uns ao outros”. Nenhum frade deve adotar atitudes nem títulos de superioridade. Os que exercem a autoridade são designados “ministros e servos” de seus irmãos (RnB 4 e 5; RB  l0).Esta fraternidade, vivida como experiência cristã no interior do grupo, abre-se a todos os homens, amigos ou inimigos, cristãos ou infiéis e estende-se a todas as coisas: todas são “irmãs”, porque a criação inteira tem seu centro de referência em Cristo “irmão”.
4. Até 1217, não se pode falar de uma organização propriamente dita. A primeira Regra dispunha: “Os frades não tenham entre si autoridade e nem dominação alguma, mas devem servir-se e obedecer-se mutuamente por espírito de caridade” (RnB 5). Toda a dinâmica da fraternidade articulava-se, tendo como centro animador a pessoa de Francisco, que, mais que superior era o modelo e o mestre espiritual de todos. Até à introdução do noviciado em 1220, o ingresso na Ordem fazia-se mediante a vestição do hábito e do cordão; a prova da vocação evangélica era a renúncia a todos os bens e o serviço dos leprosos. A fraternidade reunia-se perioridicamente, em capítulo, com o fim de manter a consciência de grupo, reforçar os compromissos comuns e, ocasionalmente, revisar ou completar os estatutos que garantiam a unidade, baseando-se  sempre no “modo de vida”, que assim ia se adaptando à realidade como ela se apresentava. Um hábito uniforme, simples e pobres, expressava externamente essa unidade interna. Porém, unidade não era uniformidade: Francisco respeitava a individualidade de cada irmão, seu “dom” pessoal.
5. O meio de subsistência era o trabalho. Quando este não dava o suficiente, recorria se à mesa do Senhor mediante a mendicância. Contudo, a intenção de Francisco não foi fundar uma Ordem “mendicante”. Ao entrar na fraternidade os irmãos não abandonavam a antiga profissão ou ofício artesanal, mas o exerciam como meio de procurar o sustento e como serviço minorítico. Podiam dispor, para isso, das ferramentas e instrumentos próprios do ofício. Outros se empregavam como domésticos ou ajudavam aos agricultores nas tarefas do campo. O pagamento era em espécie, nunca em dinheiro. A ocupação preferida, contudo, era o cuidado dos leprosos, com os quais compartilhavam o fruto do trabalho e da esmola (RnB 7-9). De dia trabalhavam, pregavam ou pediam esmolas; à noite, se recolhiam em alguma ermida, nos leprosários ou nos átrios das igrejas, a menos que alguma alma caridosa lhes oferecesse hospedagem.
6. A pregação, “mais com o exemplo que com a palavra”, é o fato essencial no serviço minorítico aos homens. Além da pregação “penitencial” comum a todos, existia a pregação doutrinal, reservada aos sacerdotes aprovados; também esta, porém, devia ser popular, dirigida à conversão. Francisco se propôs, vá rias vezes, o problema de como conciliar a entrega à contemplação sossegada, que tão bem respondia à sua experiência mística, com a ação externa no meio dos homens, para a qual o impulsionava sua fidelidade a Cristo. E a resposta que sempre encontrava, em sua disponibilidade diante do querer de Deus, era que não devia reservar para si o dom recebido, mas que ele mesmo se devia a todos os homens, Alternou sempre, e assim o ensinou aos seus, os períodos de atividade itinerante com os de retiro nos eremitérios. O eremitério, situado sempre em lugares agrestes, em meio à natureza virgem, oferecia ao mesmo tempo enriquecimento espiritual, nas experiência de Deus, e ocasião de reavivar os laços fraternos, na intimidade do pequeno grupo. Não era vida anacorética. Neste projeto apostólico, merecia destaque a presença e a ação missionária entre os infiéis a que foi dedicado um longo capítulo na Regra de 1221. Todos esses elementos vão evoluindo na medida em que a fraternidade cresce, numericamente, e segundo o vão exigindo as novas condições de vida e de ação, inclusive aproveitando muitos elementos das outras formas de vida religiosa, mas a dinâmica interna das origens continuar  assegurando ao franciscanismo sua fisionomia inconfundível dos séculos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário